Penumbra
Visão limitada
Sentidos
Ainda mais aguçados
Estranho
Ter sombra nas sombras
Como se cada objeto
Cada mobília
Nos observassem
Cochichassem entre si
Dos nossos atos carnais
Acusando-nos
Julgando-nos
Mas não damos atenção
A essa hipocrisia
E o nosso desprezo
É facilmente comprado
Pela paixão do toque
Por esse momento abrasador
Um cheiro adocicado
Invade-me as narinas
Uma fumaça
Tímida
Espalha tal cheiro
Incensos
Denunciados
Por um tom vermelho
Pequenas brasas
Quase despercebidas
E esquecidas
Pelas sombras
Outro aroma
Implica com meu olfato
Uma fragrância de flores
Advinda de uma pele
Macia
Apetitosa
Salgada
Devido ao suor
Ao qual
Sinto o sabor
Em todo o seu corpo
Despido
Despidos
Próximos
Colados
Como se fossemos um
Pernas
Entre pernas
Barrigas unidas
Como se dividíssemos
O mesmo umbigo
Ela sente
Todo o corpo
Sendo tocado
Como eu se eu tivesse
Dez mãos
Respiração acelerada
Beijos desordeiros
Apertões
Apalpadas
Chupões
Mordidas
Gemidos
Abraços sufocantes
Em uma dança lasciva
Com movimentos libertinos
E sensações delirantes
A cama como palco
O roçar do lençol
É a música
Dessa antiga dança horizontal
A qual
Bailamos
Executando os mais diversificados
Movimentos
Coreografia improvisada
Inspirada pela vontade
Coração a galopar
Bombeando
Esforço
Vontade
Desejo
Cobiça
Devassidão
Luxúria
Ela se entrega
Eu me entrego
A respiração
Vai diminuindo seu ritmo
O coração vai voltando
A sua docilidade
Abrimos os olhos
Com os rostos próximos
Nos encaramos
Sorrimos
Engolimos a seco
Ela morde os lábios
Levanto uma das sobrancelhas
Devolvo o ato
Com um sorriso
Curtinho
Esses que ficam
No canto da boca
Malicioso
Delatando a minha vontade
Baixo a minha visão
Mesmo a meia luz
A observo
Lentamente
Dos pés a cabeça
Os meus olhos
Devoram cada centímetro
Do seu corpo desnudo
Nossos olhos
Voltam a se encontrar
Ela pende a cabeça pro lado
Como se quisesse uma resposta
Entendo a dica
Levanto-me
Volto a acender novos incensos
Viro-me
Olho para a escultura
Deitada de bruços
Com as canelas a balançar
Apoiada sobre os cotovelos
Mãos unidas e dedos entrelaçados
Com o queixo apoiado sobre esses
Por uma fração de segundo
Noto que tenho
O ícone do pecado em minha cama
Meu olhar adquire um ar libidinoso
Ela nota o meu querer
Pergunta:
“Vai ficar só olhando?”
“Vai ficar só olhando?”
Sorrio
E volto pra cama...
Nenhum comentário:
Postar um comentário