terça-feira, 16 de julho de 2013

Será em um lindo dia de sol
Ou será em um dia tempestuoso?
Numa rua amplamente tumultuada
Ou será numa praia deserta?
Em uma dessas grandes avenidas congestionadas
Ou numa dessas veredas do campo?
Em uma festividade religiosa
Ou em uma ausência total da fé?
Durante o percurso do trabalho
Ou no meio de uma viagem de férias?
Em uma comemoração familiar
Ou em noite solitária de domingo?
Na beira do mar
Ou no meio do asfalto?
Ser-se-á perto de casa
Ou em um horizonte distante?
Ainda não sei bem ao certo
Muito menos quando
Mas um dia
Irei me esquecer por aí
Com um olhar catatônico
Um olhar no infinito
Aqueles olhares
Longínquos
Que parecem que tocam a alma
Com as noites mal dormidas
Refletidas nos olhos
Assim
Sem ver pra quer
Deixado ao léu
Com todas as qualidades
E defeitos (principalmente defeitos)
Com todos os problemas
Com todas as aflições emocionais
Amores mal curados
Alegrias repremidas
Tristezas consentidas
Cansado de ser solidão
Simplesmente
Esquecido
Deixar-me-ei ali
Quase sem querer
Numa esquina qualquer.


By: Edivan Freitas

sábado, 29 de junho de 2013

Relato De Um Assassinado

De súbito, tudo escuro. Dias e dias desse jeito, predominantemente o breu, nenhum feixe de luz ou cheiro, somente um choro distante...  Tento lembrar os motivos que me levaram a tal situação e de como poderia reverter isso, mas só consigo resgatar lembranças mortas, aos quais, não queria que imitassem Lázaro de Betânia. Lembranças que me arrematam a sentimentos de dor e decepções, sentimentos esses que deixei de alimentar porque poderiam me consumir por deixá-los crescer.
Malditas lembranças, por que não ficaram naquele maldito cemitério? O terceiro dia já passou faz tempo!
De tanto remexer nessa terra, profaná-la, o odor inicia, lentamente, a reinar por todos os cantos dessa escuridão sem sentido. E mesmo assim, não consigo encontrar respostas para essa desolação. Paulatinamente, noto que estou procurando os motivos no lugar errado, em um tempo que insisto em voltar o relógio, só para lembrar quais sentimentos não quero mais sentir.
Sim, foi Ela...
Mas eu avisei desde o inicio que eu era um idiota, congênito, um imbecil e, mesmo assim, Ela insistiu em se perder nas minhas fronteiras. Até que deixei os meus paradigmas de lado pra mais uma tentativa, faltei aulas (coisa que não faço), comprei um presente (quem diria?), talvez um frio na barriga, investi, e no final fui um fracasso. Logo Ela, que sempre foi tão gentil comigo, Ela que só queria uma migalha da minha atenção, fagulha de uma paixão, uma farpa do meu amor... Fui incapaz de me doar mesmo que parcialmente, preferi alimentar um amor utópico com outro alguém. Sei que cheguei como quem não ia mais sair. Ela sempre me cobrava sorrisos que eu não via sentido, sempre tentava um toque sutil na minha mão, tentava se sujar na imundice da minha vida, eu era um erro na vida Dela, eu só queria livrá-La de mim e não percebeu que eu já não estava mais ali. Fui interinamente Dela, com todo fulgor possível, mesmos depois das frustrações... 
E naquela quinta-feira, queria Lhe contar sobre a possibilidade de não nos vermos mais e sobre o meu futuro iminente de relação com outra pessoa, apesar de achar que essa iminência estava indo na direção da pessoa errada. Pedir desculpas pelas lágrimas que roubei e extorquiria, devido a noticia, agradecer pelo Seu suor, pelo Seu prazer e por tudo que foi positivo. Mas Ela disse que não dava mais, antes mesmo que eu juntasse forças para começar o meu discurso. Tinha passado dias pensando no que ia dizer, estava cansado por causa do peso das lágrimas que passearam no meu rosto durante as muitas noites não dormidas, estava catando as palavras certas. Eu não queria chorar na frente Dela, não queria parecer fraco diante da fragilidade do momento. Comecei a ponderar se era isso que eu queria, se estava agindo só por impulso, pois, Ela é uma das poucas pessoas que sorriem quando os nossos olhares se cruzam...
Mesmo assim, ainda me tratou com carinho, me deu um abraço, me deu um beijo e deixou que eu deitasse no seu colo para um cafuné. Dormi, tentando sonhar, numa vã esperança, com a paz no fim. Acordei. Com uma dor lacerante, bem na altura do pomo de adão, e a encarei por uma fração de segundo, antes da escuridão fazer morada nos meus olhos.
Agora me encontro mergulhado nas trevas, escutando esse choro constante. Dias passam. A frequência do choro diminui. Cessa. E nesse meio tempo, a terra do cemitério ao qual mexi, veio exalando, insuportavelmente, um odor de sentimentos mortos.
Surpreendentemente, escuto passos decididos vindos à minha direção, tento gritar, em vão, não tenho forças nem para piscar os olhos. Repentinamente, uma luz vem do alto, sobre a minha cabeça, cegando-me imediatamente. Escuto o som de uma pessoa vomitando. Depois de certo tempo, sinto um puxão nos meus cabelos e saio por completo da escuridão. Aos poucos, os meus olhos vão se acostumando com a claridade. Noto que Ela me mantém no ar, vejo que a minha cabeça está fora do meu corpo, decapitou-me e guardou a minha cabeça como uma espécie de prêmio. Por onde anda o meu corpo? Ela me encara com um olhar de nojo e desprezo, a mesma expressão que fiz em um dia de traição, a qual Ela foi autora. Ela me conduz até o banheiro, ao passar por lá, vejo o meu reflexo no espelho: Olhos escancarados, barbudo, olheiras (sempre as olheiras), com a boca entreaberta e cabelos desgrenhados. Joga a minha cabeça na lixeira. Guardou a cabeça? Por quê? Por onde anda o meu corpo mesmo? Espero que ele me encontre logo, tenho aula na segunda-feira e estou com a barba por fazer...


By: Edivan Freitas

domingo, 26 de maio de 2013

O chicote invisível
Na sua dança do açoite
Contínuo e direto
Incansável
Queima-nos às costas
O asfalto escaldante
Dificulta o respirar
Mesmo arfando
Continuo a marcha
Seguro cartazes
Faixas
Com honra e glória
Como se fosse um cavaleiro
Com o estandarte da minha casa
Numa era de guerra
Continuo a marcha
O suor é o que me nutre
O sangue derramado
É o que me dá forças
O ar abandona os meus pulmões
Para dar voz aos apitos
Para que eu fique rouco
Ao berrar as palavras de ordem
As avenidas viram ruas
As ruas viram becos
Estanco as vias
Quando decido caminhar
Em busca dos meus direitos
Quando luto
Contra o que é imoral
O que vai contra mim
Ao que não me representa
Continuo a marcha
Luto pelas minhas raças
Pelos meus gêneros
Pelas minhas etnias
Por tudo
Por todos
Luto por você
Que prefere ficar em casa
Diante da TV
Consentindo a enganação
Continuo a marcha
Sou o estorvo dos colarinhos brancos
Talvez
Por causa da coloração azulada do meu
Intimidados
Usam e abusam
De toda forma de repressão
Um confronto iminente
Contra os homens da “lei”
Perco parte de mim
Nesses embates
Às vezes
Temporariamente
Às vezes
Permanentemente
Mas continuo a marcha
Mesmo de luto
Luto
Gritando pra quem não quer ouvir
Batendo no inexistente
Descobrindo o sonegado
A repressão vem com força total
Sorrio de escárnio
E que venha repressão
Através de outros homens
Pois
Tenho medo do desconhecido
Não de homens...


By: Edivan Freitas

sábado, 27 de abril de 2013

Autoquíria

Pensamentos confusos
Coração acelerado
Nervos irrequietos
Dificuldade em respirar
Visão turva
Coração descompassado
Um passo no vazio
Precipitação irreversível
O vento
Inicia uma canção
Ensurdecedora
Minha roupa
Insiste
                [Em vão
Em querer fazer o caminho oposto
Ao que sigo
E vou
Impetuoso
Sem possíveis arrependimentos
Ao encontro Dela
Com um sorriso
Estampado no rosto
Lembro
Que já trocávamos
Alguns olhares maliciosos
                [E como Ela me flertava...
E eu fingia
Que não via
Tentava pensar
Na minha amada
Pra não dar vazão
A minha vontade
De ir para os braços
Dessa sedutora descarada
Mas hoje
Não tive como negar
De ir ao seu encontro
Depois que a vida
Deu-me algumas bofetadas
Tirou-me o emprego
Minha amada
Meus sonhos
Somente Ela estava lá
Dei-lhe um sorriso de escárnio
Revelando
A depreciação da minha própria vida
Ela deu de ombros
Olhou-me de soslaio
Acenou
Com a ausência de dor em uma das mãos
E uma boa dose de ilusão na outra
E fazendo um grande “C” com os braços
Tentando-me a um abraço apertado
Agora estou eu
Indo em sua direção
Numa velocidade vertiginosa
Algumas pessoas me notam
Olham-me embasbacadas
Surpresas
Pensam:
“Por que ele  escolheu logo Ela?”
Não ligo
Ela foi a única que me deu atenção
A única que se importou
A única que quis me olhar nos olhos
Quando ninguém olhava pra mim
Aproximo-me cada vez mais rápido
Sinto o Seu cheiro doce
E o segundo que antecedeu
Seu abraço
A dor
                [Ao quicar no chão
Lacerante
Descomunal
 Imensurável
Mas o Seu abraço frio me consola
Afaga a minha angústia
As pessoas ficam chocadas
Não acreditam no acontecido
Aperto tal abraço
Peço pra sairmos dali
Estávamos atrapalhando
O tráfego de uma sexta-feira
Ela me leva embora nos braços
Deixando pra trás
O asfalto tingido de vermelho...

sábado, 13 de abril de 2013

Saudades


Saudade
Daquela viagem que desisti
Das visitas que não recebi
Das promessas não juradas
Da liberdade que nunca tive
De molhar-me na chuva que não existiu
Das dores que não senti
Da morte que adiaram
Saudade
Dos sonhos que não lembro ao amanhecer
Da música não composta
Dos milagres aos quais não supliquei
Da mão que não toquei
Das mágoas que não guardo
Em estar de luto por quem não morreu
Do cachorro que não tive
Das dores que neguei a sentir
Dos cigarros que não fumei
Das bebidas que não traguei
Das aventuras que neguei a viver
Da mão boba que abdiquei a ter
Do beijo que não roubei
Saudade
Dos shows e filmes que não assisti
Do emprego que recusei
Do pedido de casamento que não fiz
Da tempestade que não caiu sobre minha casa
Da foto que não tiramos
Da benção não recebida
Dos parentes que nunca conheci
Do amanhecer que não vi
Saudade
Dos lugares que não visitei
Do aniversário que não festejei
Das ondas que não surfei
Dos poemas que não escrevi
Das lembranças que não tenho
Da química que não houve entre nós
Dos olhares que não trocamos
Do beijo que não provei
Dos abraços que não nos demos
Da música que não temos
Das cartas que você não enviou
Dos sorrisos que você não me deu
Da conversa que não tivemos
Do fora que você não me deu
Das lágrimas que não chorei
Do adeus que não nos demos
Dos amores que nunca amei
Saudade
Daquilo que não vivi
De tudo que não tive
Do ontem que não aconteceu
Saudade
Das saudades que nunca senti

By: Edivan Freitas

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Efêmera Paixão


O sinal fecha
Trinta segundos
De espera consentida
Um mar de luzes
A piscar
Incansáveis
Arrítmica
Buzinas
Vozes aleatórias
Uma cacofonia orquestrada
Pelo (monótono) cotidiano
E eu
Com o olhar preso
Naquele par de olhos vermelhos
Aguardando a mudança cromática
Mas a esquina
Fisga-me a atenção
Com os seus cabelos cacheados
Lábios carnudos
Tão rubro quanto
Os olhos que encarava há pouco
E seus olhos tão negros quanto
A própria pele
Com um andar estonteante
Ela atravessa a rua
Com um projeto de sorriso
Riscando-lhe o rosto
Ciente dos olhares
Que arrebata
Dos que encaravam o par de olhos vermelhos
Ela intensifica
Seu andar serpentino
Na sua passarela
Pintada de preto e braço
Com a cabeça erguida
O olhar no infinito
Não se permitindo
A aceitar
As aliciações
As buzinas
E segue o seu caminho
Ignorando os ignorantes
E eu
Perdido em tal beleza
Não saberei
Como desapaixonar
Por tal formosura
O par de olhos vermelhos
Nota o meu abobamento
E para abrandar
O meu sofrer
Resolve
Mudar de humor
E me presenteia
Com uma piscadela verde
Desperto do devaneio
Com uma buzinada a minhas costas
Inicio o avanço
Voltando aos pouco em si
Perguntando-me:
“Como posso me apaixonar tão fácil?”
Embora abstruso
Vou seguindo
Até o momento
Que sou intimado
A parar mais uma vez
Pelo par de olhos vermelhos
Cansado de me dar privilégios
Trinta segundos
De espera consentida
Até que a esquina
Mais uma vez
Fisga-me a atenção...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Morena


Ê Morena
Pele escura
Numa tonalidade
A qual
É impossível não desejar
Cabelos negros e encaracolados
Deixando meus pensamentos
Tão enrolados e confusos
Como suas madeixas
Ê Morena
Dona de olhos grandes e brilhantes
Quando mirados em minha direção
Acalma a tempestade
Que levo na cabeça
E me dificulta a respiração
Deixando-a
Curta
Cansativa e abreviada
Ê Morena
De boca carnuda e sorriso fácil
Boca essa
Que só me faz
Pensar no pecado
Senti-la
Sem nem mesmo toca-la
E esse sorriso ardil!?
Fazendo com que
Todos que o vejam
Fiquem arrebatados
Abobados
Ê Morena
De jeito doce e simpático
Faz com que os homens
Confundam sua amizade
Com intenções libidinosas
Ensandeçam diante
Da sua forma simples e cativante
De tratá-los como homens
Ê Morena
Voz de contra-alto
Afável
A qual me encanta
Como a mais bela peça para violoncelo
Prendendo-me a atenção
Os sentidos
O viver
Como se fosse o canto da sereia
Ê Morena
Presença avassaladora
Quando perto
Faz-me tremer
Ter calafrios
Sem saber o que pensar
Como agir
O que falar
Levando-me
A outrora
Fazendo-me sentir
Novamente
Um menino
Ê Morena
Que me faz tremer
Que me faz perder a hora
O que é certo
O que é errado
Os meus princípios
A realidade
As minhas conquistas
O que quero conquistar
Só por você ser
Morena...