quinta-feira, 7 de junho de 2012

Morena


Ê Morena
Pele escura
Numa tonalidade
A qual
É impossível não desejar
Cabelos negros e encaracolados
Deixando meus pensamentos
Tão enrolados e confusos
Como suas madeixas
Ê Morena
Dona de olhos grandes e brilhantes
Quando mirados em minha direção
Acalma a tempestade
Que levo na cabeça
E me dificulta a respiração
Deixando-a
Curta
Cansativa e abreviada
Ê Morena
De boca carnuda e sorriso fácil
Boca essa
Que só me faz
Pensar no pecado
Senti-la
Sem nem mesmo toca-la
E esse sorriso ardil!?
Fazendo com que
Todos que o vejam
Fiquem arrebatados
Abobados
Ê Morena
De jeito doce e simpático
Faz com que os homens
Confundam sua amizade
Com intenções libidinosas
Ensandeçam diante
Da sua forma simples e cativante
De tratá-los como homens
Ê Morena
Voz de contra-alto
Afável
A qual me encanta
Como a mais bela peça para violoncelo
Prendendo-me a atenção
Os sentidos
O viver
Como se fosse o canto da sereia
Ê Morena
Presença avassaladora
Quando perto
Faz-me tremer
Ter calafrios
Sem saber o que pensar
Como agir
O que falar
Levando-me
A outrora
Fazendo-me sentir
Novamente
Um menino
Ê Morena
Que me faz tremer
Que me faz perder a hora
O que é certo
O que é errado
Os meus princípios
A realidade
As minhas conquistas
O que quero conquistar
Só por você ser
Morena...

...À Primeira Vista


A luz do sol
Ao sair do prédio
Ofusca-me a visão
Levo alguns segundos
Para acostumar-me
Com a luminosidade
Olho para o céu anil
Poucas nuvens
Que passeiam tranquilas
Calmas
Suspensas
Acima das preocupações mundanas
Moldando-se a vontade
Sempre tomando
Formas nostálgicas
E me enchendo de inveja
Por estar acima de tudo e de todos
Respiro fundo
Desço as escadas
E aguardo
Os amigos que também
Sairão do mesmo prédio
Distraído
Arremesso o meu olhar
Rua acima
Noto
Uma figura feminil
Caminhando
Em minha direção
Dona de um andar
Hipnotizante
E sem querer
                           [Ou não
Consegue
Algemar o meu olhar
Que vai subindo
Dos seus pés
                           [Bem calçados
Passa pela sua cintura
Que se movimenta
Como uma serpente
Encantando-me a visão
E finalmente
Chego aos seus olhos
Aos quais
Estão decididos
Mas dóceis
A olhar nos meus
Assusto-me
Pela objetividade deles
De me desarmar
Engulo a seco
Minhas pernas tremem
As mãos transpiram
Suo frio
E seu olhar
Senhoril do pecado
Faz com que
A minha visão fique
Retida neles
E me desperta
Um liquidificador de sentimentos
Ela sorri
“Bom dia! Tudo bem?”
Ela fala
Como se nada
Estivesse acontecendo
                           [Não sei como
Saio da minha paralisia momentânea
Volto a me mexer
Presenteio-a com um sorriso
                           [Torto e sem graça
“Bom dia!”
É tudo que consigo falar
Pois a minha respiração
Está descompassada
Ela me oferece
Um sorriso ainda mais largo
Meu coração apressa-se em seu trabalho
Derreto-me
Fico mudo
Para que ela não note
O meu coração
Que já estava na minha boca
Onde o mesmo
Subiu sem dificuldades
Pela minha garganta
Ao ver a arma
Que ela carrega nos lábios
E após o disparo que ela me fez
O meu estômago congela
Ela
Subiu
Nos mesmos degraus
Aos quais acabo de descer
Chegando ao topo da escadaria
Vira-se
Encara-me
Seus lábios
Usam a tal arma mais uma vez
Perco-me
Nesse último sorriso
E entra no prédio
No mesmo momento
Meus amigos saem
Descem as escadas
E notam que não estou
No meu “normal”
Balançam as mãos
Diante do meu rosto
Lentamente
Meus olhos vão readquirindo o foco
As borboletas
Deixam de fazer festa no meu estômago
E vão saindo
Pela minha boca entreaberta
Meu coração
Vai saindo do ritmo carnavalesco carioca
Para seu trabalho habitual
Somente minha respiração
Que não volta a normalidade
Pois no breve momento
Que senti a sua fragrância
Viciei-me
E já sinto abstinência do seu cheiro
Com a respiração ainda alterada
E engolindo a seco
Meus amigos me sacodem
E indagam
O motivo desse fascínio
Olho para todos
Eles
Olham entre si e para mim
Aturdidos
Ainda sem saberem o que aconteceu
Sorrio e digo:
“É estranho se apaixonar, não é!?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Querem Ver o Circo Pegar Fogo

O espetáculo começa
O Palhaço Ciclista aparece
Em meio à confusão
Do picadeiro
Bem ao centro
Todos o veem
E de imediato
Outro palhaço
Em posse de um carro
O atropela por diversão
Toda a plateia urra
Grita
Clama pelo divertimento
O Palhaço Ciclista
Contorce-se ao chão
Os espectadores
Arregalam os olhos
E se aproximam
Para não perder os detalhes
O Mestre de Cerimônias
Tenta manter as pessoas afastadas
Tentativas em vão
Em seguida
O Palhaço do Carro
Sai do veiculo interpretando
Um bêbado
Solta alguns xingamentos incompreensíveis
Passa a mão pela cabeça
Ao perceber o que fizera
Olha para os presentes
Levanta o ombro como quem diz:
“Não foi por querer...”
Depois de algumas encenações
Chega o carro dos Mágicos
Seguido pelo Carro das Praças
O público presente
Os recebem com palmas
Os Mágicos
Juntamente com seus assistentes
E alguns utensílios
Aproximam-se do Palhaço Ciclista
Pegam suas ferramentas
Colocam no palhaço caído
Falam algumas palavras mágicas
Balançam as mãos
O tocam com vigor
Dão uns assopros
Abracadabra
O Ciclista volta a si
Respirando com dificuldade
Com um olhar perdido e assustado
Amparado pelos paramédicos
Ele é colocado dentro da ambulância
E o levam as pressas para o hospital
Os policias levam o motorista bêbado para depoimento
O senhor que tentou afastar a multidão
Volta a sentar no seu banquinho
Junto à calçada
A população se dispersa
Excitada
Comentado com fervor
Cada detalhe
Relance
Minúcia
Eu
Abismado
Pelo humor sádico da população
Instigada pela violência do trânsito
Uma das tragédias da vida real
Rasgo o meu ingresso gratuito
E volto pra casa a passos largos
Inconformado.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Tentativa

Juro que dei o meu melhor
Esforcei-me
Falei
Balbuciei
Sussurrei
Gritei
E você não se importou
Não ligou
Nem se quer ponderou
Por alguma das minhas palavras
Apenas olhava para os lados
Com uma expressão de chateação
Rezando para que a minha ladainha
Acabasse logo
E como resposta
Para a minha tentativa
De reconhecimento
De salvar o que restava
De nós
Você
Olhou pra mim
E com um sorriso de desdém
Fez um sinal de negativo com a cabeça
E se foi
Embasbacada
Fiquei a olhar
Você
Caminhando
Fugindo
De mim ou de si!?
Seguiu sem tropeços
Acelerado
E vi
Você
A dobrar a esquina
Nem sequer olhou pra trás
Humilhação
É a moeda de câmbio
Pra quem se entrega
Inteiramente
Ao amor
Sentimento esse
Que não nos permite
Raciocinar
Pensar
Usar da razão
Apenas nos faz voar
Sem previsão
De quando vai nos abandonar
Independente
Da altura que estamos em tal vôo
E a queda livre fica
Por conta da “casa”
Começa a chover
A chuva se mistura com as lágrimas
O soluço
É o que denuncia o meu choro
A chuva da desilusão
Encharca minha face
O vento murmura
Uma canção fúnebre
Em condolência
A uma parte de mim
Que morreu
Com a sua partida
Lentamente
Volto a ter o controle do meu corpo
Pois
O baque me paralisara
Com as pernas tremulas
Começo a caminhar
Pelo caminho contrário que você seguiu
Passo por um carro estacionado
Vejo o meu reflexo no vidro
Vejo-me como os meus sentimentos
Contorcidos e confusos
Noto
Que minhas lágrimas são negras
Imaginei que o meu corpo
Expulsava o mal
E o rancor que você deixara
Mas é apenas a chuva
Que me retira a maquiagem
Ela me quer pura
Sem falsas cordialidades
Sem jogos
Na tentativa de me lavar a alma
E aceito a proposta
Entrego-me a sua simpatia
Chego à esquina
Olho pra trás
Enxergo a outra esquina
Fecho os olhos
Consigo
Relembrar o momento
Em que você desaparece
Do meu campo de visão
E lembro-me de quando
Olhávamos juntos
Na mesma direção
Agora
Seguimos e olhamos
Em direções opostas...

terça-feira, 6 de março de 2012

Sair!?


Queria sair
A semana foi pesada
E o final de semana bate na porta
Mas o cansaço não é tanto
Um banho o renovaria as forças
Queria sair
Os amigos o convidam
Milhares de lugares diferentes
Das mais diversas opções
Pondera sobre os convites
Queria sair
O clima está ameno
Chega a ser uma noite incomum
A lua o chama
Iluminando
A sua mais singela caminhada
Queria sair
Está dando a sua hora
Um frio invade-lhe a barriga
Fica nervoso
A olhar a rua pela porta
Queria sair
Ele avalia se vai lá
Imagina ser mais um ardil
Teme pelo seu bem estar
Não queria se deparar
Com a realidade tão cedo
Não se sente forte o suficiente
Queria sair
Quer se prevenir
De um perigo maior
Mas o tempo
Insiste
A passar vagarosamente
Martirizando-o
Queria sair
Receia encontrar
Quem não quer
Ou de fato quer
Ainda se sente confuso
Respira fundo
Olha pra rua
Sente as mãos tremerem
As pernas bambearem
Desiste de sair
Senta-se no sofá
Passa as mãos
Pela cabeça
Solta um muxoxo
E pensa:
“Amanhã eu saio!”

sexta-feira, 2 de março de 2012

Permitindo-se


Ainda lembra
Do quanto fugiu
Correu
Esquivou
Das dores do seu último
Romance
Lembra
Da dificuldade
De levantar-se
Pois a queda livre
Que ela o fez fazer
Após tirá-lo o chão
Fizeram feridas profundas
Lembra
Das palavras duras que ela o ofereceu
E ele
Bobamente
As aceitou
Sem questionamentos
E das conseqüências
Dessas mesmas palavras
Lembra
Que sofreu
Que chorou
Que lamentou
Pois foi integro
Simples
Verdadeiro
Puro
Ele
Lembra
Que doeu
Que fez falta
Que sentiu medo
Que se sentiu só
Que se perdeu
Que os dias eram iguais
Mas apesar das dificuldades
Dos problemas
Da vida dura
Dos dias árduos
Juntou forças
Levantou-se
Ergueu a cabeça
Olhou para o horizonte
E ele era mais longo do que imaginava
Por que não explorá-lo!?
E aos poucos
Foi deixando
Todas as dores e lamentações
Para trás
Na medida em que foi caminhando
Aos poucos foi esquecendo
Desse passado doloroso
Sofrido
Foi ganhando confiança
Firmeza
No seu pensar
Nas suas decisões
No seu caminhar
E conseguiu de volta
O que mais lhe fazia falta
O ato de sorrir
Caminhou
Passeou
Viajou
Conheceu gente
Beijou gente
Deitou com gente
Livrou-se dela
Hoje
Ela
Não passa de um passado esquecido
De mais um degrau escalado
Uma superação
Vive intensamente
Procurando fazer
De cada dia
Único
Intenso
Como se acendesse
Um único palito de fósforo
E o colocasse de volta na caixa
Uma explosão por dia
Contínua
A caminhar
Com um sorriso
A oferecer a quem quiser
Aceitá-lo
Com as feridas saradas
Sem correr de ninguém
Com uma felicidade
Imensurável
Por estar livre
De qualquer moléstia sentimental
Por viver
Independente de companhia
De alguém a atormentá-lo
Feliz de estar só
Somente só
Aí aparece você
Com um sorriso
Tão largo
Quanto
A sua vontade
De se negar a paixão
O desarma
Novamente
Fica sem chão
Olha para outras mulheres
E só ver você
Mas
Ele não quer isso de novo
Quer seguir sem ninguém
Mas você insiste
Em estar
No seu pensar
Lembra dos seus olhos
A tocar-lhe a alma
Um afago delicado
Quase que sem querer
Que tira o fôlego
E em fazer-lhe sentir
Esse frio na barriga
Em se sentir notado
Por alguém
Que o faz ter vontade
De fazer coisas impossíveis
Logo agora
Que estava se sentindo forte
Você aparece
Com esse jogo sujo
De ser linda
Dona de um olhar paralisante
Hipnotizante
Onde o arranca a atenção
Com tamanha facilidade
Como respirar
Não queria isso
Logo agora
Que estava
Curando-se
Da ressaca do amor
Mas
Já que está com a garrafa em mãos
Ele se permite
Embriagar-se de novo
Desse vicio doloroso
Onde todos temem
Prová-lo novamente
Após a primeira dose mal ingerida
Mas por você
Ele tentaria de novo
Cairia outra vez
Em queda livre
Mesmo você
Avisando-o
Que não seria as suas asas
Mas ele tem coragem
Vontade
De correr esse risco
Por isso
Abaixe essas armas
Desfaça
Esse personagem
Que não chora
Que não fica triste
Pois
Seus olhos dizem o contrário
Se permita também
Só assim
Conseguiriam a chance
Mesmo que remota
De ser felizes
Você
Assim
Como as outras mulheres
Querem se apaixonar
Por homens perfeitos
Ele
Procura
Apaixonar-se
Pelas imperfeições das mulheres...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Amizade²


Você que não passava de mais um
Era apenas uma pessoa
Que deslizava pela minha vida
Como tantas outras pessoas
Mas me fez ri uma
Duas
Três vezes
E é o suficiente que uma pessoa
Pode fazer pra me ter como companheiro
Olhou por mim
Me apoiou
Me aconselhou
Solucionou um dos meus problemas
Mais que o suficiente
Pra ser meu amigo
E assim como todos os meus amigos
Te abraço como um familiar
Uma pessoa
Que sob as minhas asas
Nada e ninguém
Te fará mal
Assim como a mais frágil das criaturas
Protege a sua prole dos predadores
Não deixarei que nada te aconteça
Mesmo que as magoas
Que as pessoas insistem em te ofertar
Essas que se aproximam
E dizem que te amam
Mas só abusam e usam
Dessa sua forma única
Perfeita e sublime de amar
Estou aqui
Sempre a te esperar
Com meus ombros
E mãos de veludo
A te acariciar e dizer:
“Ninguém merece as suas lágrimas”
Mesmo que a minha vontade
De proclamar o meu discurso
De “Bem que eu te disse...”
Fique preso na garganta
Eu te apoiarei
Mesmo que você diga
Que a felicidade
Está em um copo de veneno
Chorarei por essa decisão estúpida
Te darei um tapa
Te beijarei a face
E direi:
”Estou aqui, divida esse peso...”
Fico feliz
Quando reparte
As suas felicidades comigo
Fico mais feliz
Quando você divide
Um pouco das suas tristezas
Sempre terei um abraço pronto pra você
Pois você não é apenas um conhecido
Nem um colega
Muito menos um companheiro
É mais que um amigo
Meu doce irmão...