segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Desistência

     O frio era intenso, as articulações doíam bastante, de vez por outra os dentes ficavam a castanholar num ritmo intenso, impreciso e paravam de súbito para recuperar as forças para compor a próxima melodia. O sono lhe acariciava há horas, mas não se rendia a tal moléstia. O vento açoitava-lhe com certo zango, por estar agüentando por tempos as chibatadas e a permanecer firme, sem nem mesmo protestar. O céu insiste em omitir a presença das estrelas, deixando-o uma aparência fúnebre e desolador, como se não quisesse dar oportunidade para o futuro. Não havia nuvens, mostrando assim a sua covardia perante a tristeza, ao menos tivessem se mostrado negras e furiosas, mas preferiram fugir a presenciar o que estava por vir... E o som era constante, como um canto agourento que ficava a lhe encantar, assim como o canto das sereias, que o chamava, o convidava, o seduzia para um mergulho, prevendo a sua vontade duvidosa do seu bem estar. Os olhos estavam secos, não tinham mais sinais de lágrimas e nem previsão para as próximas, já estavam calejados diante da decisão onde em um passado breve não passava de uma idéia, agora é uma resposta. Com as pernas trêmulas, levantou-se com certa dificuldade, sentiu náuseas, a visão ficou turva, a respiração ficou irregular e acelerada, era o protesto do corpo sobre a sua decisão. O coração ficou aceso, furioso, desesperado, acuado e com um grito abafado, apressou seus movimentos ensandecidamente, confirmando o abandono da fé e dando, ao seu dono, a sensação de estar escalando pela sua garganta, potencializando a falta de ar. Com um andar mecânico e desengonçado, aproximou-se ainda mais da água, e o imprevisto acontece, ela invadiu-lhe a cabeça de forma inexplicável, “Mas por quê!? Eu tinha levado tudo de mim, pra não ter razão de voltar e nem lembrar dela” pensou o infeliz rapaz. De forma imponente continuou a sua marcha desconjuntada rumo ao mar. Ao pisar na areia molhada, um calafrio galopou a sua espinha tão rápido como um raio e ao atingir a cabeça, sentiu-a aquecer, deixando-o tonto e meio desesperado. A marola veio lamber seus pés em respeito a sua decisão em se oferecer como oferenda. Os olhos começaram a marejar, a água fria começou a dar uma sensação de calma, a respiração ficou branda, o coração ficou manso, a onda afagou seu peito, um sentimento de paz começou a invadir seu ser. Uma lembrança dela lhe veio à cabeça mais uma vez, “Já é tarde demais...” pensa. E num momento de quase inconsciência, a paz envolve o seu corpo, um sorriso se desenha em seu rosto cansado e no mesmo instante o coração se alegra diante da ausência da dor. E despareceu no meio da água. E no mesmo momento iniciou-se mais um dia e surpreendentemente a mais espetacular das alvoradas surge para encarar o seu espectador fiel, que nesse dia em diante não estará presente para contemplá-la...

Nenhum comentário:

Postar um comentário