De súbito, tudo
escuro. Dias e dias desse jeito, predominantemente o breu, nenhum feixe de luz
ou cheiro, somente um choro distante... Tento
lembrar os motivos que me levaram a tal situação e de como poderia reverter
isso, mas só consigo resgatar lembranças mortas, aos quais, não queria que
imitassem Lázaro de Betânia. Lembranças que me arrematam a sentimentos de dor e
decepções, sentimentos esses que deixei de alimentar porque poderiam me
consumir por deixá-los crescer.
Malditas
lembranças, por que não ficaram naquele maldito cemitério? O terceiro dia já passou
faz tempo!
De tanto
remexer nessa terra, profaná-la, o odor inicia, lentamente, a reinar por todos
os cantos dessa escuridão sem sentido. E mesmo assim, não consigo encontrar
respostas para essa desolação. Paulatinamente, noto que estou procurando os motivos
no lugar errado, em um tempo que insisto em voltar o relógio, só para lembrar
quais sentimentos não quero mais sentir.
Sim, foi
Ela...
Mas eu
avisei desde o inicio que eu era um idiota, congênito, um imbecil e, mesmo
assim, Ela insistiu em se perder nas minhas fronteiras. Até que deixei os meus
paradigmas de lado pra mais uma tentativa, faltei aulas (coisa que não faço), comprei
um presente (quem diria?), talvez um frio na barriga, investi, e no final fui
um fracasso. Logo Ela, que sempre foi tão gentil comigo, Ela que só queria uma
migalha da minha atenção, fagulha de uma paixão, uma farpa do meu amor... Fui
incapaz de me doar mesmo que parcialmente, preferi alimentar um amor utópico
com outro alguém. Sei que cheguei como quem não ia mais sair. Ela sempre me
cobrava sorrisos que eu não via sentido, sempre tentava um toque sutil na minha
mão, tentava se sujar na imundice da minha vida, eu era um erro na vida Dela,
eu só queria livrá-La de mim e não percebeu que eu já não estava mais ali. Fui
interinamente Dela, com todo fulgor possível, mesmos depois das
frustrações...
E naquela
quinta-feira, queria Lhe contar sobre a possibilidade de não nos vermos mais e
sobre o meu futuro iminente de relação com outra pessoa, apesar de achar que
essa iminência estava indo na direção da pessoa errada. Pedir desculpas pelas
lágrimas que roubei e extorquiria, devido a noticia, agradecer pelo Seu suor,
pelo Seu prazer e por tudo que foi positivo. Mas Ela disse que não dava mais,
antes mesmo que eu juntasse forças para começar o meu discurso. Tinha passado
dias pensando no que ia dizer, estava cansado por causa do peso das lágrimas que passearam no meu
rosto durante as muitas noites não dormidas, estava catando as palavras certas.
Eu não queria chorar na frente Dela, não queria parecer fraco diante da
fragilidade do momento. Comecei a ponderar se era isso que eu queria, se estava
agindo só por impulso, pois, Ela é uma das poucas pessoas que sorriem quando os
nossos olhares se cruzam...
Mesmo assim,
ainda me tratou com carinho, me deu
um abraço, me deu um beijo e deixou que eu deitasse no seu colo para um cafuné.
Dormi, tentando sonhar, numa vã esperança, com a paz no fim. Acordei. Com uma
dor lacerante, bem na altura do pomo de adão, e a encarei por uma fração de
segundo, antes da escuridão fazer morada nos meus olhos.
Agora me encontro mergulhado nas trevas, escutando esse choro constante. Dias passam. A frequência do choro diminui. Cessa. E nesse meio tempo, a terra do cemitério ao qual mexi, veio exalando, insuportavelmente, um odor de sentimentos mortos.
Agora me encontro mergulhado nas trevas, escutando esse choro constante. Dias passam. A frequência do choro diminui. Cessa. E nesse meio tempo, a terra do cemitério ao qual mexi, veio exalando, insuportavelmente, um odor de sentimentos mortos.
Surpreendentemente, escuto passos
decididos vindos à minha direção, tento gritar, em vão, não tenho forças nem
para piscar os olhos. Repentinamente, uma luz vem do alto, sobre a minha
cabeça, cegando-me imediatamente. Escuto o som de uma pessoa vomitando. Depois
de certo tempo, sinto um puxão nos meus cabelos e saio por completo da
escuridão. Aos poucos, os meus olhos vão se acostumando com a claridade. Noto
que Ela me mantém no ar, vejo que a minha cabeça está fora do meu corpo,
decapitou-me e guardou a minha cabeça como uma espécie de prêmio. Por onde anda
o meu corpo? Ela me encara com um olhar de nojo e desprezo, a mesma
expressão que fiz em um dia de traição, a qual Ela foi autora. Ela me conduz
até o banheiro, ao passar por lá, vejo o meu reflexo no espelho: Olhos escancarados, barbudo, olheiras
(sempre as olheiras), com a boca entreaberta e cabelos desgrenhados. Joga a
minha cabeça na lixeira. Guardou a cabeça? Por quê? Por onde anda o meu corpo
mesmo? Espero que ele me encontre logo, tenho aula na segunda-feira e estou com
a barba por fazer...
By: Edivan
Freitas
Nenhum comentário:
Postar um comentário