sábado, 29 de junho de 2013

Relato De Um Assassinado

De súbito, tudo escuro. Dias e dias desse jeito, predominantemente o breu, nenhum feixe de luz ou cheiro, somente um choro distante...  Tento lembrar os motivos que me levaram a tal situação e de como poderia reverter isso, mas só consigo resgatar lembranças mortas, aos quais, não queria que imitassem Lázaro de Betânia. Lembranças que me arrematam a sentimentos de dor e decepções, sentimentos esses que deixei de alimentar porque poderiam me consumir por deixá-los crescer.
Malditas lembranças, por que não ficaram naquele maldito cemitério? O terceiro dia já passou faz tempo!
De tanto remexer nessa terra, profaná-la, o odor inicia, lentamente, a reinar por todos os cantos dessa escuridão sem sentido. E mesmo assim, não consigo encontrar respostas para essa desolação. Paulatinamente, noto que estou procurando os motivos no lugar errado, em um tempo que insisto em voltar o relógio, só para lembrar quais sentimentos não quero mais sentir.
Sim, foi Ela...
Mas eu avisei desde o inicio que eu era um idiota, congênito, um imbecil e, mesmo assim, Ela insistiu em se perder nas minhas fronteiras. Até que deixei os meus paradigmas de lado pra mais uma tentativa, faltei aulas (coisa que não faço), comprei um presente (quem diria?), talvez um frio na barriga, investi, e no final fui um fracasso. Logo Ela, que sempre foi tão gentil comigo, Ela que só queria uma migalha da minha atenção, fagulha de uma paixão, uma farpa do meu amor... Fui incapaz de me doar mesmo que parcialmente, preferi alimentar um amor utópico com outro alguém. Sei que cheguei como quem não ia mais sair. Ela sempre me cobrava sorrisos que eu não via sentido, sempre tentava um toque sutil na minha mão, tentava se sujar na imundice da minha vida, eu era um erro na vida Dela, eu só queria livrá-La de mim e não percebeu que eu já não estava mais ali. Fui interinamente Dela, com todo fulgor possível, mesmos depois das frustrações... 
E naquela quinta-feira, queria Lhe contar sobre a possibilidade de não nos vermos mais e sobre o meu futuro iminente de relação com outra pessoa, apesar de achar que essa iminência estava indo na direção da pessoa errada. Pedir desculpas pelas lágrimas que roubei e extorquiria, devido a noticia, agradecer pelo Seu suor, pelo Seu prazer e por tudo que foi positivo. Mas Ela disse que não dava mais, antes mesmo que eu juntasse forças para começar o meu discurso. Tinha passado dias pensando no que ia dizer, estava cansado por causa do peso das lágrimas que passearam no meu rosto durante as muitas noites não dormidas, estava catando as palavras certas. Eu não queria chorar na frente Dela, não queria parecer fraco diante da fragilidade do momento. Comecei a ponderar se era isso que eu queria, se estava agindo só por impulso, pois, Ela é uma das poucas pessoas que sorriem quando os nossos olhares se cruzam...
Mesmo assim, ainda me tratou com carinho, me deu um abraço, me deu um beijo e deixou que eu deitasse no seu colo para um cafuné. Dormi, tentando sonhar, numa vã esperança, com a paz no fim. Acordei. Com uma dor lacerante, bem na altura do pomo de adão, e a encarei por uma fração de segundo, antes da escuridão fazer morada nos meus olhos.
Agora me encontro mergulhado nas trevas, escutando esse choro constante. Dias passam. A frequência do choro diminui. Cessa. E nesse meio tempo, a terra do cemitério ao qual mexi, veio exalando, insuportavelmente, um odor de sentimentos mortos.
Surpreendentemente, escuto passos decididos vindos à minha direção, tento gritar, em vão, não tenho forças nem para piscar os olhos. Repentinamente, uma luz vem do alto, sobre a minha cabeça, cegando-me imediatamente. Escuto o som de uma pessoa vomitando. Depois de certo tempo, sinto um puxão nos meus cabelos e saio por completo da escuridão. Aos poucos, os meus olhos vão se acostumando com a claridade. Noto que Ela me mantém no ar, vejo que a minha cabeça está fora do meu corpo, decapitou-me e guardou a minha cabeça como uma espécie de prêmio. Por onde anda o meu corpo? Ela me encara com um olhar de nojo e desprezo, a mesma expressão que fiz em um dia de traição, a qual Ela foi autora. Ela me conduz até o banheiro, ao passar por lá, vejo o meu reflexo no espelho: Olhos escancarados, barbudo, olheiras (sempre as olheiras), com a boca entreaberta e cabelos desgrenhados. Joga a minha cabeça na lixeira. Guardou a cabeça? Por quê? Por onde anda o meu corpo mesmo? Espero que ele me encontre logo, tenho aula na segunda-feira e estou com a barba por fazer...


By: Edivan Freitas

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